Deus estranho



“Muitas coisas me valem quando Deus fica estranho e do que é mínimo, às vezes, vem o desejado consolo”.

Deparei-me
com esta frase da Adélia na poesia “Folhinha” do livro “Coração
Disparado”. E isso justo num momento em que Deus, para mim, está mais
que estranho. Falo isso, mas no mesmo ato em que os neurônios trocam
sinapses algo vem e diz: já te ocorreu que o estranho aqui é tu mesmo?
E penso isso porque, explico para mim, quem se torna estranho verá o
outro de forma estranha. No que concordo meio a contragosto. Mas tenho
contra-argumentos e digo. Sim, mas há que buscar porque me estranhei.
Desconheci Deus. Pelo menos aquele que me pareceu familiar durante
tanto tempo. Ocorre-me que foi um Deus aprendido. De leituras com
hermenêuticas pré-cozidas em fogões de outros. É isso. Ele sempre foi o
que disseram dele para mim e o que li nas páginas da Bíblia, mas que de
algum modo me havia sido dito antes, como uma história que sabemos o
fim.

Acrescentei
“descobertas” de coisas e formas de como Deus funciona. Disse a outros,
ora com convicção, ora em dúvida porque me perguntava como falava de
algo sobre o qual não experienciei e a última pessoa que conheço que
atesta ter vivido isto morreu há pelo menos 3 mil anos? Os ouvintes
perceberam a hesitação, por isso aquelas caras sem expressão. Não
entendiam. E se a tal experiência dele é única e não há como revivê-la?
Atemo-nos ao princípio, não ao fato tal como aconteceu, respondo. Que
seja. Quero então conhecer sob as condições de temperatura e pressão do
hoje.

Ao
contrário da poetisa, meus olhos se perdem em grandes coisas e não vejo
o mínimo donde posso achar um necessário consolo. Até o ipê que me
desperta sentimentos de alumbramento quando floresce, este ano deu meia
copa de flores. Carrego o desamparo e a desconfiança. Tenho dificuldade
de lembrar seus feitos gloriosos que não vi e não me satisfaz os mares
partidos, as pragas que subjugaram inimigos, nem carruagens de fogo
arrebatando gente viva no meio do caminho.

Até
corro o risco do mal entendido, mas basta dar glória em meio à angústia
porque se está vivo e a comida não faltou à mesa? Banalizo a dádiva?
Apequeno a bênção? Quero comer sentidos. Quero beber palavras para
encaixar nos desvãos da alma desorientada. A comida e a bebida irão,
depois, para lugares escusos, quero o que se incorporará ao que é
eterno em mim.
Eudes Alencar

Anúncios

Sorrir é o melhor remédio?

Uma
empresa ferroviária japonesa está usando um novo método para checar se
seus funcionários estão sorrindo sempre. A companhia instalou máquinas
especiais em 15 estações de Tóquio que medem, através de um sistema de
computador, a curvatura do sorriso.

Os trabalhadores que não tiverem um sorriso adequado vão ser advertidos que devem ser menos sérios e mais simpáticos.

Vale sorriso amarelo?

espiando


                            "Silent observer"  de Alfred Gockel

Estou te espiando.
Sempre estarei
espiando-te passar
e não falar.
Eu também não falo,
por conta de copiosa timidez,
mas te vigiar eu posso,
espiar também,
pois não tira pedaço
nem é infeccioso
e, ainda por cima, não mordo.
Pelo contrário,
quero apenas te olhar
e te fazer carícias imaginárias,
visto que não sei se
te interessaria a verdade,
quando eu te olharia
com esses olhos tão grandes,
te cheiraria
com esse nariz tão grande.
E essa boca…
Ah!… Essa boca enorme!…
É pra te bendizer!

 João Costa Filho

pedaços


                                          “Echoes of the past”  de San Base

Sinto cair de mim
pedaços.
Fogem de mim
momentos
que se vão,
que somem
e voltam.
Pedaços, lembranças
despedaçadas
de sombras
que não voltam.
Não sou mais o mesmo
e me arrasto
incompleto,
à procura das falhas
das verdades,
que me fazem distante
de mim,
dispersivo.
Não me falem mais
de verdade,
que não quero ouvir.
No momento,
prefiro mentiras agradáveis…

 João Costa Filho

só sei que nada sei….


                                              “A discussion”  de Louis Charles Moeller

Não sei se sei
alguma coisa,
pois toda a vez
que digo que sei
caio em uma dessas
armadilhas de não saber,
pois saber qualquer coisa
é tão profundo
que dizer não saber
também o é
e nos leva à eterna ignorância
de achar que o outro
é ignorante.
Caracterizar é ridículo.
Preciosismo é ridículo.
O certo e o errado
moram no mesmo lugar.
Se um olha da esquerda
e outro da direita,
vêem coisas totalmente diferentes.
E vamos saber
qual dos dois viu certo?…
As interpretações dos textos
ou as exegeses
só explicam
aos intérpretes de tais modelos,
se lhes caem bem.
Melhor não discutir
o ser ou não ser.
Sei nada.
Ninguém sabe quase nada.
A explicação do ovo
ou colocá-lo em pé
são só detalhes
para latifúndios inexplorados,
mas cheios de autores
e de certezas.
A janela do saber é guilhotina.
Põe-se a mão
e podes vê-la decepada
ou tua cabeça
rolará ladeira abaixo.
Vou me recolher aos escombros
de minha sapiência
e assistir à roda da vida
com seus explicadores…

De: João Costa Filho

destino


                           “Destin”  de André Roulliard

Partirei como cheguei,
em alguma asa alada,
que, não sei de quê,
vou contrariado
como vim, sem consulta.
Vou. Não tenho opção
e comigo nada de meu levo
de importante,
nem deixo saudades
verdadeiras.
Só as habituais lamúrias
de roteiro previsto.
Nunca tive um grande amor,
apesar de constantemente apaixonado.
E tantas vezes persegui,
cacei, busquei
o verdadeiro, o único amor
das histórias sem fim,
mas não fui cooptado.
Fui abduzido
desta honraria.
Não deixo muitos amigos.
Deles, nada levo.
De tudo, nada entendi
nem aprendi a decifrar
enigmas ou mistérios.
Parto vazio como vim
e a isso chamam
destino…

De: João Costa Filho

para um amigo……..


"Quando
a mente penetra no sentimento
a graça do viver é abalada
e assim a
dúvida e a incerteza
aniquilam sem dó e nem piedade o relacionamento

que sempre necessita florecer como flor de jardim"

Um homem foi visitar um sábio conselheiro e
disse-lhe que estava passando por muitas dificuldades em seu casamento.
Falou-lhe que já não amava sua mulher e que pensava em separação…O
sábio escutou-o, olhou-o nos olhos e disse-lhe: ame-a! Mas já não sinto
nada por ela! Retrucou o homem. Ame-a! Disse-lhe novamente o sábio.
Diante do desconcerto do homem, depois de um breve silêncio, o sábio
lhe disse o seguinte: "amar é uma decisão; é dedicação e entrega; é
ação… Portanto, para amar é preciso apenas tomar uma decisão. Quando
você se decide a cultivar um jardim, você sabe que é necessário
preparar o terreno, semear, regar, esperar a germinação e a floração.
Você sabe que haverá pragas, ervas daninhas, tempos de seca ou de
excesso de chuva, mas se você está decidido a ter um belo jardim,
jamais desistirá, por maiores que sejam as dificuldades. Assim também
acontece no campo do amor. É preciso dedicação, cuidado, espera. .
Portanto,
se quiser cultivar as flores da afeição, dedique-se. Ame seu par,
aceite-o, valorize-o, respeite-o, dê afeto e ternura, admire-o e
compreenda-o… Isso é tudo… Apenas ame! continua…